quarta-feira, 16 de novembro de 2016

NA ARCA

       


CAPÍTULO A

1. — Então Noé disse a seus filhos Jafé, Sem e Cam: — “Vamos sair da arca, segundo a vontade do Senhor, nós, e nossas mulheres, e todos os animais. A arca tem de parar no cabeço de uma montanha; desceremos a ela.
2. — “Porque o Senhor cumpriu a sua promessa, quando me disse: “Resolvi dar cabo de toda a carne; o mal domina a terra, quero fazer perecer os homens. Faze uma arca de madeira; entra nela tu, tua mulher e teus filhos.
3. — “E as mulheres de teus filhos, e um casal de todos os animais.
4. — “Agora, pois, se cumpriu a promessa do Senhor, e todos os homens pereceram, e fecharam-se as cataratas do céu; tornaremos a descer à terra, e a viver no seio da paz e da concórdia.”
5. — Isto disse Noé, e os filhos de Noé muito se alegraram de ouvir as palavras de seu pai; e Noé os deixou sós, retirando-se a uma das câmaras da arca.
6. — Então Jafé levantou a voz e disse: — “Aprazível vida vai ser a nossa. A figueira nos dará o fruto, a ovelha a lã, a vaca o leite, o sol a claridade e a noite a tenda.
7. — “Porquanto seremos únicos na terra, e toda a terra será nossa, e ninguém perturbará a paz de uma família, poupada do castigo que feriu a todos os homens.
8. — “Para todo o sempre.” Então Sem, ouvindo falar o irmão, disse: — “Tenho uma idéia”. Ao que Jafé e Cam responderam:— “Vejamos a tua idéia, Sem.”
9. — E Sem falou a voz de seu coração, dizendo: — “Meu pai tem a sua família; cada um de nós tem a sua família; a terra é de sobra; podíamos viver em tendas separadas. Cada um de nós fará o que lhe parecer melhor: e plantará, caçará, ou lavrará a madeira, ou fiará o linho.”
10. — E respondeu Jafé: — “Acho bem lembrada a idéia de Sem; podemos viver em tendas separadas. A arca vai descer ao cabeço de uma montanha; meu pai e Cam descerão para o lado do nascente; eu e Sem para o lado do poente. Sem ocupará duzentos côvados de terra, eu outros duzentos.”
11. — Mas, dizendo Sem: — “Acho pouco duzentos côvados” —, retorquiu Jafé: “Pois sejam quinhentos cada um. Entre a minha terra e a tua haverá um rio, que as divida no meio, para se não confundir a propriedade. Eu fico na margem esquerda e tu na margem direita;
12. — “E a minha terra se chamará terra de Jafé, e a tua se chamará a terra de Sem; e iremos às tendas um do outro, e partiremos o pão da alegria e da concórdia.”
13. — E tendo Sem aprovado a divisão, perguntou a Jafé: “Mas o rio? a quem pertencerá a água do rio, a corrente?
14. — “Porque nós possuímos as margens, e não estatuímos nada a respeito da corrente.” E respondeu Jafé, que podiam pescar de um e outro lado; mas, divergindo o irmão, propôs dividir o rio em duas partes, fincando um pau no meio. Jafé, porém, disse que a corrente levaria o pau.
15. — E tendo Jafé respondido assim, acudiu o irmão: — “Pois que te não serve o pau, fico eu com o rio, e as duas margens; e para que não haja conflito, podes levantar um muro, dez ou doze côvados, para lá da tua margem antiga.
16. — “E se com isto perdes alguma coisa, nem é grande a diferença, nem deixa de ser acertado, para que nunca jamais se turbe a concórdia entre nós, segundo é a vontade do Senhor.”
17. — Jafé porém replicou: — “Vai bugiar! Com que direito me tiras a margem, que é minha, e me roubas um pedaço de terra? Porventura és melhor do que eu,
18. — “Ou mais belo, ou mais querido de meu pai? Que direito tens de violar assim tão escandalosamente a propriedade alheia?
19. — “Pois agora te digo que o rio ficará do meu lado, com ambas as margens, e que se te atreveres a entrar na minha terra, matar-te-ei como Caim matou a seu irmão.”
20. — Ouvindo isto, Cam atemorizou-se muito, e começou a aquietar os dois irmãos,
21. — Os quais tinham os olhos do tamanho de figos e cor de brasa, e olhavam-se cheios de cólera e desprezo.
22. — A arca, porém, boiava sobre as águas do abismo.
CAPÍTULO B
1. — Ora, Jafé, tendo curtido a cólera, começou a espumar pela boca, e Cam falou-lhe palavras de brandura,
2. — Dizendo: — “Vejamos um meio de conciliar tudo; vou chamar tua mulher e a mulher de Sem”.
3. — Um e outro, porém, recusaram dizendo que o caso era de direito e não de persuasão.
4. — E Sem propôs a Jafé que compensasse os dez côvados perdidos, medindo outros tantos nos fundos da terra dele. Mas Jafé respondeu:
5. — “Por que me não mandas logo para os confins do mundo? Já te não contentas com quinhentos côvados; queres quinhentos e dez, e eu que fique com quatrocentos e noventa.
6. — “Tu não tens sentimentos morais? não sabes o que é justiça? não vês que me esbulhas descaradamente? e não percebes que eu saberei defender o que é meu, ainda com risco de vida?
7. — “E que, se é preciso correr sangue, o sangue há de correr já e já,
8. — “Para te castigar a soberba e lavar a tua iniqüidade?”
9. — Então Sem avançou para Jafé; mas Cam interpôs-se, pondo uma das mãos no peito de cada um;
10. — Enquanto o lobo e o cordeiro, que durante os dias do dilúvio, tinham vivido na mais doce concórdia, ouvindo o rumor das vozes, vieram espreitar a briga dos dois irmãos, e começaram a vigiar-se um ao outro.
11. — E disse Cam: — “Ora, pois, tenho uma idéia maravilhosa, que há de acomodar tudo;
12. — “A qual me é inspirada pelo amor, que tenho a meus irmãos. Sacrificarei pois a terra que me couber ao lado de meu pai, e ficarei com o rio e as duas margens, dando-me vós uns vinte côvados cada um.”
13. — E Sem e Jafé riram com desprezo e sarcasmo, dizendo: — “Vai plantar tâmaras! Guarda a tua idéia para os dias da velhice”. E puxaram as orelhas e o
nariz de Cam; e Jafé, metendo dois dedos na boca, imitou o silvo da serpente, em ar de surriada.
14. — Ora, Cam, envergonhado e irritado, espalmou a mão dizendo: — “Deixa estar!” e foi dali ter com o pai e as mulheres dos dois irmãos.
15. — Jafé porém disse a Sem: — “Agora que estamos sós, vamos decidir este grave caso, ou seja de língua ou de punho. Ou tu me cedes as duas margens, ou eu te quebro uma costela.”
16. — Dizendo isto, Jafé ameaçou a Sem com os punhos fechados, enquanto Sem, derreando o corpo, disse com voz irada: “Não te cedo nada, gatuno!”
17. — Ao que Jafé retorquiu irado: “Gatuno és tu!”
18. — Isto dito, avançaram um para o outro e atracaram-se. Jafé tinha o braço rijo e adestrado; Sem era forte na resistência. Então Jafé, segurando o irmão pela cinta, apertou-o fortemente, bradando: “De quem é o rio?”
19. — E respondendo Sem: — “É meu!” Jafé fez um gesto para derrubá-lo; mas Sem, que era forte, sacudiu o corpo e atirou o irmão para longe; Jafé, porém, espumando de cólera, tornou a apertar o irmão, e os dois lutaram braço a braço,
20. — Suando e bufando como touros.
21. — Na luta, caíram e rolaram, esmurrando-se um ao outro; o sangue saía dos narizes, dos beiços, das faces; ora vencia Jafé,
22. — Ora vencia Sem; porque a raiva animava-os igualmente, e eles lutavam com as mãos, os pés, os dentes e as unhas; e a arca estremecia como se de novo se houvessem aberto as cataratas do céu.
23. — Então as vozes e brados chegaram aos ouvidos de Noé, ao mesmo tempo que seu filho Cam, que lhe apareceu clamando: “Meu pai, meu pai, se de Caim se tomará vingança sete vezes, e de Lameque setenta vezes sete, o que será de Jafé e Sem?”
24. — E pedindo Noé que explicasse o dito, Cam referiu a discórdia dos dois irmãos, e a ira que os animava, e disse: — “Correi a aquietá-los”. Noé disse: — “Vamos”.
25. — A arca, porém, boiava sobre as águas do abismo.
CAPÍTULO C
1. — Eis aqui chegou Noé ao lugar onde lutavam os dois filhos,
2. — E achou-os ainda agarrados um ao outro, e Sem debaixo do joelho de Jafé, que com o punho cerrado lhe batia na cara, a qual estava roxa e sangrenta.
3. — Entretanto, Sem, alçando as mãos, conseguiu apertar o pescoço do irmão, e este começou a bradar: “Larga-me, larga-me!”
4. — Ouvindo os brados, as mulheres de Jafé e Sem acudiram também ao lugar da luta, e, vendo-os assim, entraram a soluçar e a dizer: “O que será de nós? A maldição caiu sobre nós e nossos maridos.”
5. — Noé, porém, lhes disse: “Calai-vos, mulheres de meus filhos, eu verei de que
se trata, e ordenarei o que for justo.” E caminhando para os dois combatentes,
6. — Bradou: “Cessai a briga. Eu, Noé, vosso pai, o ordeno e mando”. E ouvindo os dois irmãos o pai, detiveram-se subitamente, e ficaram longo tempo atalhados e mudos, não se levantando nenhum deles.
7. — Noé continuou: “Erguei-vos, homens indignos da salvação e merecedores do castigo que feriu os outros homens”.
8. — Jafé e Sem ergueram-se. Ambos tinham feridos o rosto, o pescoço e as mãos, e as roupas salpicadas de sangue, porque tinham lutado com unhas e dentes, instigados de ódio mortal.
9. — O chão também estava alagado de sangue, e as sandálias de um e outro, e os cabelos de um e outro,
10. — Como se o pecado os quisera marcar com o selo da iniqüidade.
11. — As duas mulheres, porém, chegaram-se a eles, chorando e acariciando-os, e via-se-lhes a dor do coração. Jafé e Sem não atendiam a nada, e estavam com os olhos no chão, medrosos de encarar seu pai.
12. — O qual disse: “Ora, pois, quero saber o motivo da briga”.
13. — Esta palavra acendeu o ódio no coração de ambos. Jafé, porém, foi o primeiro que falou e disse:
14. — “Sem invadiu a minha terra, a terra que eu havia escolhido para levantar a minha tenda, quando as águas houverem desaparecido e a arca descer, segundo a promessa do Senhor;
15. — “E eu, que não tolero o esbulho, disse a meu irmão: “Não te contentas com quinhentos côvados e queres mais dez?” E ele me respondeu: “Quero mais dez e as duas margens do rio que há de dividir a minha terra da tua terra”.
16. — Noé, ouvindo o filho, tinha os olhos em Sem; e acabando Jafé, perguntou ao irmão: “Que respondes?”
17. — E Sem disse: — “Jafé mente, porque eu só lhe tomei os dez côvados de terra, depois que ele recusou dividir o rio em duas partes; e propondo-lhe ficar com as duas margens, ainda consenti que ele medisse outros dez côvados nos fundos das terras dele,
18. — “Para compensar o que perdia; mas a iniqüidade de Caim falou nele, e ele me feriu a cabeça, a cara e as mãos”.
19. — E Jafé interrompeu-o dizendo: “Porventura não me feriste também? Não estou ensangüentado como tu? Olha a minha cara e o meu pescoço; olha as minhas faces, que rasgaste com as tuas unhas de tigre”.
20. — Indo Noé falar, notou que os dois filhos de novo pareciam desafiar-se com os olhos. Então disse: “Ouvi!” Mas os dois irmãos, cegos de raiva, outra vez se engalfinharam, bradando: — “De quem é o rio?” — “O rio é meu”.
21. — E só a muito custo puderam Noé, Cam e as mulheres de Sem e Jafé conter os dois combatentes, cujo sangue entrou a jorrar em grande cópia.
22. — Noé, porém, alçando a voz, bradou: — “Maldito seja o que me não obedecer. Ele será maldito, não sete vezes, não setenta vezes sete, mas setecentas vezes setenta.
23. — “Ora, pois, vos digo que, antes de descer a arca, não quero nenhum ajuste a respeito do lugar em que levantareis as tendas.”
24. — Depois ficou meditabundo.
25. — E alçando os olhos ao céu, porque a portinhola do teto estava levantada, bradou com tristeza:
26. — “Eles ainda não possuem a terra e já estão brigando por causa dos limites. O que será quando vierem a Turquia e a Rússia?”
27. — E nenhum dos filhos de Noé pôde entender esta palavra de seu pai.
28. — A arca, porém, continuava a boiar sobre as águas do abismo.


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