terça-feira, 1 de setembro de 2015

Machado de Assis - Papéis Avulsos - NOTAS DO AUTOR


Machado de Assis - Papéis Avulsos



NOTAS DO AUTOR




Advertência
Deste modo, venha donde vier o reproche....



O Alienista
Não ousava fazer-lhe nenhuma queixa ou reproche....
Cerca de dois anos para cá, recebi duas cartas anônimas, escritas por pessoa inteligente e simpática, em que me foi notado o uso do vocábulo reproche. Não sabendo como responda ao meu estimável correspondente, aproveito esta ocasião.
Reproche não é galicismo. Nem reproche nem reprochar. Morais cita, para o verbo, este trecho dos Inéd., II, fl. 259: hum non tinha que reprochar ao outro; e aponta os lugares de Fernando de Lucena, Nunes de Leão e D. Francisco Manuel de Melo, em que se encontra o substantivo reproche. Os espanhóis também os possuem.
Resta a questão de eufonia. Reproche não parece malsoante. Tem contra si o desuso. Em todo caso, o vocábulo que lhe está mais próximo no sentido, exprobração, acho que é insuportável. Daí a minha insistência em preferir o outro, devendo notar-se que não o vou buscar para dar ao estilo um verniz de estranheza, mas quando a idéia o traz consigo.



A Chinela Turca
Este conto foi publicado, pela primeira vez, na Época nº 1, de 14 de novembro de 1875. Trazia o pseudônimo de Manassés, com que assinei outros artigos daquela folha efêmera. O redator principal era um espírito eminente, que a política veio tomar às letras: Joaquim Nabuco. Posso dizê-lo sem indiscrição. Éramos poucos e amigos. O programa era não ter programa, como declarou o artigo inicial, ficando a cada redator plena liberdade de opinião, pela qual respondia exclusivamente. O tom (feita a natural reserva da parte de um colaborador) era elegante, literário, ático. A folha durou quatro números.



“O Segredo do Bonzo”
Como se terá visto, não há aqui um simples pastiche, nem esta imitação foi feita com o fim de provar forças, trabalho que, se fosse só isso, teria bem pouco valor. Era-me preciso, para dar a possível realidade à invenção, colocá-la a distância grande, no espaço e no tempo; e para tornar a narração sincera, nada me pareceu melhor do que atribuí-la ao viajante escritor que tantas maravilhas disse. Para os curiosos acrescentarei que as palavras: Atrás deixei narrado o que se passou nesta cidade Fuchéu, — foram escritas com o fim de supor o capítulo intercalado nas Peregrinações, entre os caps. CCXIII e CCXIV.
O bonzo do meu escrito chama-se Pomada, e pomadistas os seus sectários. Pomada e pomadista são locuções familiares da nossa terra: é o nome local do charlatão e do charlatanismo.
“O Anel de Polícrates” — Era um saco de espantos...
Em algumas linhas escritas para dar o último adeus a Artur de Oliveira, meu triste amigo, disse que era ele o original deste personagem. Menos a vaidade, que não tinha, e salvo alguns rasgos mais acentuados, este Xavier era o Artur. Para completá-lo darei aqui mesmo aquelas linhas impressas na Estação de 31 de agosto último:
“Quem não tratou de perto este rapaz, morto a 21 do mês corrente, mal poderá entender a admiração e saudade que ele deixou.
“Conheci-o desde que chegou do Rio Grande do Sul, com dezessete ou dezoito anos de idade; e podem crer que era então o que foi aos trinta. Aos trinta lera muito, vivera muito; mas toda aquela pujança de espírito, todo esse raro temperamento literário que lhe admirávamos, veio com a flor da adolescência; desabrochara com os primeiros dias. Era a mesma torrente de idéias, a mesma fulguração de imagens. Há algumas semanas, em escrito que viu a luz na Gazeta de Noticias, defini a alma de um personagem com esta espécie de hebraísmo: — chamei-lhe um saco de espantos. Esse personagem (posso agora dizê-lo) era, em algumas partes, o nosso mesmo Artur, com a sua poderosa loqüela e extraordinária fantasia. Um saco de espantos. Mas, se o da minha invenção morreu exausto de espírito, não aconteceu o mesmo a Artur de Oliveira, que pôde alguma vez ficar prostrado, mas não exauriu nunca a força genial que possuía.
“Um organismo daqueles era naturalmente irrequieto. Minas o viu, pouco depois, no colégio dos padres do Caraça, começando os estudos, que interrompeu logo, para continuá-los na Europa. Na Europa travou relações literárias de muito peso; Teófilo Gauthier, entre outros, queria-lhe muito, apreciava-lhe a alta compreensão artística, a natureza impetuosa e luminosa, os deslumbramentos súbitos de raio. Venez, père de la foudre! dizia-lhe ele, mal o Artur assomava à porta. E o Artur, assim definido familiarmente pelo grande artista, entrava no templo, palpitante da divindade, admirativo como tinha de ser até à morte. Sim, até à morte. Gauthier foi uma das religiões que o consolaram. Sete dias antes de o perdermos, isto é, a 14 deste mês, prostrado na cama, roído pelo dente cruel da tísica, escrevia-me ele a propósito de um prato do jantar. “O verde das couves espanejava-se em uma onda de pirão, cor de ouro. A palheta de Ruysdael, pelo incendido do ouro, não hesitaria um só instante, em assinar esse pirão mirabolante, como diria o grande, e divino Teo...” Grande e divino! Vede bem que esta admiração é de um moribundo, refere-se a um morto, e fala na intimidade da correspondência particular. Onde outra mais sincera?
“Não escrevo uma biografia. A vida dele não é das que se escrevem; é das que são vividas, sentidas, amadas, sem jamais poderem converter-se à narração; tal qual os romances psicológicos, em que a urdidura dos fatos é breve ou nenhuma. Ultimamente, exercia o professorado no Colégio de Pedro II; mas a doença tomou-
o entre as suas tenazes, para não o deixar mais.
“Não o deixou mais: comeu-lhe a seiva toda; desfibrou-o com a paciência dos grandes operários. Ele, como vimos, prestes a tropeçar na cova, regalava-se ainda das reminiscências literárias, evocava a palheta de Ruysdael, olhando para a vida que lhe ia sobreviver, a vida da arte que ele amou com fé religiosa, sem proveito para si, sem cálculo, sem ódios, sem invejas, sem desfalecimento. A doença fê-lo padecer muito; teve instantes de dor cruel, não raro de desespero e de lágrimas; mas, em podendo, reagia. Encararia alguma vez o enigma da morte? Poucas horas antes de morrer (perdoem-me esta recordação pessoal; é necessária), poucas horas antes de morrer, lia um livro meu, o das Memórias Póstumas de Brás Cubas, e dizia-me que interpretava agora melhor algumas de suas passagens. Talvez as que entendiam com a ocasião... E dizia-me aquilo serenamente, com uma força de ânimo rara, uma resignação de granito. Foi ao sair de, uma dessas visitas, que escrevi estes versos, recordando os arrojos dele comparados com o atual estado. Não lhos mostrei; e dou-os aqui para os seus amigos:
Sabes tu de um poeta enorme, Que andar não usa
No chão, e cuja estranha musa, Que nunca dorme,
Calça o pé melindroso e leve, Como uma pluma, De folha e flor, de sol e neve, Cristal e espuma;
E mergulha, como Leandro, A forma rara
No Pó, no Sena, em Guanabara, E no Escamandro;
Ouve a Tupã e escuta a Momo, Sem controvérsia,
E tanto adora o estudo, como Adora a inércia;
Ora do fuste, ora da ogiva Sair parece;
Ora o Deus do Ocidente esquece Pelo deus Siva;
Gosta do estrépito infinito, Gosta das longas
Solidões em que se ouve o grito Das arapongas;
E se ama o rápido besouro, Que zumbe, zumbe,
E a mariposa que sucumbe Na flama de ouro,
Vaga-lumes e borboletas Da cor da chama,
Roxas, brancas, rajadas, pretas, Não menos ama
Os hipopótamos tranqüilos, E os elefantes,
E mais os búfalos nadantes, E os crocodilos,
Como as girafas e as panteras, Onças, condores,
Toda a casta de bestas-feras E voadores.
Se não sabes quem ele seja, Trepa de um salto,
Azul acima, onde mais alto A águia negreja;
Onde morre o clamor iníquo Dos violentos;
Onde não chega o riso oblíquo Dos fraudulentos.
Então olha, de cima posto, Para o oceano; Verás num longo rosto humano Teu mesmo rosto;
E hás de rir, não do riso antigo, Potente e largo, Riso de eterno moço amigo; Mas de outro amargo,
Como o riso de um deus enfermo, Que se aborrece Da divindade, e que apetece Também um termo...
“Os amigos dele apreciarão o sentido desses versos. O público, em geral, nada tem com um homem que passou pela terra sem o convidar para coisa nenhuma, um forte engenho que apenas soube amar a arte, como tantos cristãos obscuros amaram a Igreja, e amar também aos seus amigos, porque era meigo, generoso e bom.”

“A Sereníssima República”
Este escrito, publicado primeiro na Gazeta de Noticias, como outros do livro, é o único em que há um sentido restrito: — as nossas alternativas eleitorais. Creio que terão entendido isso mesmo, através da forma alegórica.



“Uma visita de Alcibíades”
Este escrito teve um primeiro texto, que reformei totalmente mais tarde, não aproveitando mais do que a idéia. O primeiro foi dado com um pseudônimo e passou despercebido.
FIM






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